domingo, 21 de março de 2010

ITACARÉ – TRIP GRINGA EM TERRITÓRIO NACIONAL



Cansados da mesmice de pegar sempre os mesmos picos, as mesmas ondas, eu, Miguel, Diogo e Silveira resolvemos fazer uma trip para um lugar, que segundo relatos, seria calor, teria boas ondas e visuais de sonho.

Após algumas pesquisas de valores de passagens aéreas, pousadas, aluguel de carros e outros detalhes, resolvemos virar turistas comuns, pois era muito mais barato, praticamente metade do preço. Compramos um pacote turístico com umas dessas operadoras famosas, incluindo aéreo, translado, pousada com café da manhã, piscina e ar condicionado, super luxo. Algo que em geral, nas surf trips não acontece.

O vôo saía de São Paulo, para ser mais econômicos preferimos fazer de carro os 400 km até lá, economia de mais ou menos uns R$ 300,00 por pessoa, valia a pena atravessar a madrugada na estrada, 6hs de sono e cansaço na BR-116. Chegando em São Paulo, fomos direto ao Aeroporto, tínhamos um tempo de sobra, pois não podíamos correr o risco de atrasos, sendo que éramos integrantes de uma excursão, he he, isso mesmo! Logo, o avião decola e uma sensação de ansiedade misturada com alegria toma conta de todos nós. Será que vai ter onda, será que não vai ter muito vento, será, será...

Pausa em Salvador, um pequeno atraso no vôo, algum tempo aguardando dentro de um ônibus na pista do aeroporto, momento de angústia e de maus cheiros. Enfim, após esse episódio desesperador, seguimos viagem e desembarcamos em Ilhéus, cidade histórica baiana já bem próximo de do nosso destino, Itacaré. Mais uma hora de ônibus e chegamos. Tratados como bons turistas, o transporte nos deixou na porta de uma pousada bem simpática, com piscina e tudo mais, lugar alto astral.

Já era fim de tarde, todos muito cansados, demos um tempo nos quartos e logo saímos para jantar e conhecer a cidade. Dormir cedo e acordar cedo eram os combinados dessa viagem, o dia amanhece cedo e queríamos aproveitar cada minuto de surf.

Nos primeiros raios de sol, todos em pé e fomos direto para o pico mais próximo da pousada, para a primeira queda nas águas baianas. Praia da Tiririca, curta faixa de areia, entre costões de pedras, do outside pode-se visualizar os picos vizinhos, os quais naquelas condições não quebravam de forma ideal. Pegamos 0,5 metro forte, ondas rápidas, consistentes e divertidas, chegamos no pico antes das 6hs da manhã e já havia alguns surfistas na água. O crowd nesse pico é algo impressionante, qualquer que seja a hora ou a condição do mar sempre tem muita gente, justificado pela qualidade e consistência das ondas e pela proximidade com o centrinho da cidade, pico de fácil acesso mesmo à pé. Após nossa queda inaugural tomamos um belo café da manhana (como dizia o dono do estabelecimento, um argentino aposentado). Descansamos um pouco e saímos pela cidade para um reconhecimento da área e para localizar as locadoras de veículos, era imprescindível um carro para explorar os picos da região.

Uma longa procura e várias negociações depois, conseguimos um Uno verde, que chamávamos carinhosamente de Uno Rover, imaginem porque? Começamos então a ficar descolados na cidade, o Silveira já tinha estado ali já fazia alguns anos e serviu como um guia ou quase isso, deu boas dicas e algumas furadas também. Diversão em alto estilo marcou a barca. Havia uma previsão de um swell mais forte para os próximos dias, fomos então verificando quais seriam as praias visitadas e que pudessem oferecer as melhores condições de surf. Partimos em seguida para a primeira mini-expedição, uns 10 km de Uno Rover e uns 40 minutos andando por uma trilha enlameada no meio da Mata Atlântica, visuais paradisíacos. Passamos por um pico chamado havaizinho, mas não era ali o surf, o swell não batia nesse local e a maré seca deixava as pedras amostra, seguimos a trilha e chegamos na Praia da Engenhoca. A praia tem aproximadamente uns 500 mts com dois picos definidos, o direito e o esquerdo, com aquela situação era o pico esquerdo (norte) que quebravam as melhores séries. Rodeada de coqueiros, com um riozinho saindo no canto direito da praia era realmente um visual de sonho, aquecemos e caímos na água, as séries vinham com a média de 0,5 metro, sendo algumas maiores, abriam muito. Fizemos a cabeça até os braços não agüentarem mais. Banho de rio e coco verde para refrescar,iniciamos a caminhada de volta, a alegria contagiava a todos.

O ritmo de vida da cidade gira em torno do ecoturismo, todos acordam muito cedo para aproveitar ao máximo o dia. Nós fazíamos exatamente o mesmo acordando ao amanhecer e surfando o dia todo, às 20 hs estávamos todos quebrados, mas com o astral mais zen possível, ligados e integrados totalmente com a natureza num estilo de vida baiano. Vida calma, pacata. Os dias seguiram rapidamente, com vários momentos mágicos, lembro-me nitidamente do pôr-do-sol de Itacaré na praia do Pontal, fim de tarde vermelho com a cidadezinha ao fundo, e eu e meus amigos curtindo a praia deserta, quase sem fim.

Outro programa marcante foi a visita à Prainha, saindo da pousada caminha-se por uns quinze minutos por uma estradinha, passando pelas praias do Tiririca e do Rezende, só então entra-se numa exuberante mata-atlântica, andando num ambiente puro e natural, com vários pássaros, um pouco de lama e muita fissura para encontrar uma bela praia recheada com ondas perfeitas. Chegando no pico, água verde, meia dúzia de turistas (estes em geral hospedados em um hotel que fica logo após a linha de coqueiros e restinga) e muitas ondas. As ondas quebravam em média com 1,0 metro, fortes e tubulares, fizemos a cabeça num dia lindo com muito sol. Após algumas horas dentro da água, o esquema é sair e tomar uma água de coco curtindo o visual sentado na sombra dos coqueiros. E assim foi passando o dia. Muito surf, calor e alto astral.

Cada dia, desbravávamos um pico diferente, que era programado conforme os ventos e a direção do swell. Chegou o dia de ir para a Praia de Jeribucaçú, até o nome assusta. Esta é umas das praias mais isoladas do município. O caminho até lá é longo, 15 km do centro da cidade por estrada asfaltada em boas condições, deixa-se o carro em uma fazenda pagando uma taxa não tão simbólica, pranchas em baixo do braço e mochila nas costas e começa a camelada. 50 minutos de estradinha de terra descendo uma grande ladeira, local lindo, depois caminha-se por uns pastos e por fim chega-se na praia. Esta,é um banco de areia fofa com um rio escorrendo lentamente pelo lado direito, do lado esquerdo um grande gramado verde impecável com coqueiros. As ondas quebram dos dois lados, devido ao vento forte do quadrante sul, surfamos boas ondas no cantinho direito protegido do tal vento. Fazia muito calor, a água era quente, e o sol escaldante. Depois de muito surf, hora de relaxar e tirar umas fotos no rio, água cristalina com fundo de areia. Diversão o dia inteiro, hora do regresso e que regresso...Subida, muita subida, todo o morro de novo para então chegar no estacionamento onde estava o Uno Rover. A longboard ganhou alguns quilos, o corpo cansado do surf pedia arrego, mas não tinha outro jeito ao não ser caminhar morro acima para só a noite descansar como um anjo, porque no dia seguinte tinha mais.

No dia seguinte teve mais, mais onda, mais sol, mais surf. Voltamos para Engenhoca o swell era perfeito para o pico. Séries com até 1,5 metros, massas d’água vinham gordas do outside, só os amigos na água, paredes abrindo lembrando muito um pico que aprecio aqui no sul. Muito bom, estava de gala. Foi o melhor surf da trip!

Faltava mais uma praia apenas, e é lá que fomos, Praia de Itacarezinho, o mar baixou significativamente e o vento aumentou a intensidade. Chegamos cedo na praia, praia fechada, mas que pagando uma taxa entra-se com o carro. O estacionamento fica a uns 10 metros da areia, conforto total, estávamos acostumados com um perrengue um pouco maior. Praia longa, deserta, mas não por muito tempo, logo depois que chegamos chegou um ou dois ônibus de excursão, acabando com o sossego daquele lugar. O surf de má qualidade, 0,5 metro mexido com muito vento e sem formação, não animou muito. Demos a queda e logo saímos, curtimos um pouco como bons turistas e retornamos para a cidade.

Nossa viagem estava chegando ao fim, foram 7 dias de muito sol, surf, águas verdes, mata atlântica, amizade, novos horizontes, enfim uma surf trip completa em território nacional. Muitas rizadas, descontração, companheirismo e surf na veia, registraram a trip na mente de cada um dos participantes. Não vejo a hora de voltar, Itacaré é show!!!

quarta-feira, 3 de março de 2010

Surf Trip Litoral Sul - parte 2




Há alguns dias em território Uruguaio a saudades do solo Brazuca começa a bater, principalmente da comida, da alegria das pessoas, dos amigos e da namorada. Agora estávamos indo em direção Montevidéo, o plano era conhecer e se possível surfar todos os picos.
Transitando pela rota 9, visitamos Balizas, onde havia um vento forte estragando as condições para o surf. Seguido às orientações dos mapas chegamos em um local próximo ao Cabo Polônio. Este cabo é de difícil acesso e não constava como um pico de surf, mas como estava sem ondulação encaramos os 20 min. de caminhão 4x4 até a Vila ao lado do grande Farol, sem as pranchas mesmo, somente para conhecer. O lugar é espetacular, o mais exótico que visitei no Uruguai, é uma Vila Hippie no meio do nada, tem praias desertas dos dois lados e a única maneira de chegar lá e com um bom 4x4 com um piloto experiente, muita areia e alguns atoleiros fazem parte do caminho. Para completar o visual as pedras em frente ao Farol ficam repletas de Leões-Marinhos, estes ficam ali para descansar e se proteger de predadores. O lugar é muito esquisito, mas a vibração é muito boa, as pessoas caminham calmamente de um lado pro outro, sem ter muito o que fazer da vida. O cabo recebe no inverno grandes ondulações, sendo um local muito propício para pegar umas boas ondas, tem muito potencial.
Através da rota 9 alcançamos uma outra cidade chamada La Paloma. Antes de entrar na cidade passamos por um outro vilarejo, La Pedrera. Ali quebrava uma onda de 0,5 metro boa, desistimos da queda devido a forte chuva que caía. É hora de pesquisar pousadas e hotel. Depois de perguntar em uns 3 estabelecimentos, resolvemos nos hospedar em um albergue, era a opção mais barata, aliás 3 vezes mais barata do que o hotel mais barato! Ficamos ali 3 noites, fizemos amigos, demos rizadas e curtimos o astral do albergue que fica no meio de uma floresta de eucaliptos.
Dia 15 de janeiro, um domingão, demos uma queda numa praia da região. La Aguada quebrava uma ondinha de 0,5 metro lisinha, com água marrom com as ondas rodando bem rápidas. Diversão garantida nas águas geladas do Uruguai, foi aqui que surfamos com Long Jonh em pleno janeiro. No período da tarde mais uma queda nesse mesmo pico, agora com um sol de rachar o cabeça, mas é claro com a água ainda gelada, foi um belo dia de surf nas merrecas Uruguaias. La Aguada é a praia mais popular da região, muita gente na praia, na água também, mas o crowd é muito tranqüilo. Neste dia checamos vários outros picos, Balconada, Anaconda, La Derecha Del Faro e outro que não recordo. A melhor opção mesmo eram as ondinhas de La Aguada.
Na segunda-feira fomos buscar uma ondas fora da cidade, passamos então procurando as ondas em picos desertos seguindo a rota 10, uma estrada de chão enlameada, mas que dava para desenvolver uma boa velocidade. Passamos por Los Caracoles, José Ignácio e outros pequenos balneários, não havia swell na região, a coisa começou a ficar crítica, a fissura estava explodindo, mas vamos lá, buscar e explorar para nós o inédito litoral. Chegando mais próximo de Punta Del Leste, os preços começam a subir, os carros ficam mais bonitos, as estradas ficam melhores e a nossa expectativa aumenta. Na cidade de La Barra, fica um dos melhores picos de surf do Uruguai, como o próprio nome da cidade diz, o pico fica exatamente na saída de um rio, para nossa decepção, não estava quebrando, como todos os outros picos da região.
Chegando em Punta Del Leste, ficamos impressionados com a arquitetura e riqueza da cidade, Iates de Luxo, mansões, cassinos, carros suntuosos, riqueza para todo o lado. Demos uma volta na cidade e resolvemos nos informar em uma Escuela de Surf sobre as opções que teríamos naquela situação. “Miramos algunas olas, pero que no eran muy buenas, eran muy pequeñas e habia mucho viento!!!” Voltamos para La Barra para almoçar e iríamos fazer um força barra, realmente força Barra. Após umas empanadas de almoço, fomos dar um check e as condições que tinham eram ainda piores. Reunião: voltar para Paloma e pegar um fim de tarde em La Aguada.
O vento sul apertou anunciando a entrada de um swell, fomos conferir as previsões. A direção e intensidade tanto do swell como dos ventos indicavam boas ondas no sul de Santa Catarina. Paramos para refletir e analisar a situação. Resolvemos dormir mais uma noite em Paloma e dar o check bem cedo, caso a condição não fosse favorável regressaríamos ao Brasil.
Acordei cedo, fui em La Aguada, Balconada e Anaconda. O mar aumentou o tamanho, porém, o vento sul continuava soprando com bastante intensidade. Nos despedimos de alguns amigos no albergue e resolvemos pegar estrada. Foi um dia puxado, o objetivo era chegar em Torres, ou seja, atravessar metade do Uruguai e todo o estado do Rio Grande do Sul. Durante a viagem, fizemos um pit stop no Balneário do Hermenegildo em Santa Vitória do Palmar, mar ressacado com bom tamanho, forte correnteza e vento sul bombando. Depois de viajar o dia inteiro chegamos em Torres no começo da noite, direto para o hotel, a estrada foi cansativa, rodamos 900 km. Em torres muita chuva e vento, expectativa em alta para o dia seguinte.
As ondas estavam com cerca de 2,0 metros nas séries o que tornava impossível atravessar a arrebentação nas praias de Torres, conferimos a Praia da Cal, a Prainha e os Molhes do Rio Mampituba. Mais uma vez sem condições de surf. Valeu pelo visual de ver a esquerda da Ilha dos Lobos quebrando grande sobre um fundo raso de pedras. Mar em fúria.
Novamente para a estrada em direção ao norte, depois de 180 km entramos em Itapirubá, pela característica da praia seria uma boa opção de surf na região. Não deu outra, na Praia Norte de Itapira haviam boas ondas em condições de mar clássico, 1,0 metrão com maiores, lisinho, pouco crowd e ondas tubulares. O frio estava presente, surf de neoprene longo. O vento sul era terral e o visual de filme. Surf intenso durante horas, tiramos o atraso. Ficamos numa pousada simples em frente ao pico, com um valor simbólico de R$ 10,00 a noite, arregado. No dia seguinte, o mar baixou bastante, porém, rolavam boas ondas ainda com mais de 0,5 metro com excelente formação. A temperatura agora já era mais agradável, o sol apareceu novamente. Surfamos pela manhã e após o almoço pegamos a estrada para outro pico que teria boas condições e que para nós seria inédito como foi Itapirubá, o pico da vez agora seria Governador Celso Ramos, Praia das Palmas.
Chegamos já era fim de tarde, e começou tudo de novo, a busca pela pousada perfeita, boa e barata. Não tivemos nenhum sucesso, as ondas também não eram das melhores e tocamos no início da noite para Mariscal, já no litoral norte catarinense.
Pessoalmente gosto muito de Mariscal, sempre peguei boas ondas lá e já surfei mares clássicos várias vezes. Em questões de pousadas, também não tivemos tanta sorte assim, mas conseguimos uma que se adequeva as nossas necessidades com um valor honesto. No dia seguinte, 0,5 metrão rápido com bastante pressão, um mar muito bom! Com direito inclusive de estourar a cordinha. Surfamos muito, durante horas. O plano era surfar, almoçar e retornar para o litoral do Paraná para pegar o final do swell. Chegando em Guaratuba, o vento nordeste estragava sensivelmente as merrecas da Praia Central, o jeito era ir para casa descansar dos vários dias seguidos de surf trip e arrumar as coisas. Como é bom estar em casa, o melhor sempre de uma viagem é o retorno para sua casa e para sua família.
No sábado, dia 21 de janeiro fui não tão cedo e não tão animado para o meu pico preferido, os Paraguaios. Chegando lá, não acreditei, marzinho irado, 0,5 metro com boa formação, com sol e só amigos na água! Depois de altas ondas, muita diversão, e quase 4 hs dentro da água, saí exausto e é claro que estava presente o bode da tarde. Esse foi um final mais do que feliz de uma surf trip irada. Amigos, ondas, natureza, experiências diferentes, alguns quilômetros rodados, só não vai quem não quer!!! Aproveite sua vida, viaje!!!!