

Cansados da mesmice de pegar sempre os mesmos picos, as mesmas ondas, eu, Miguel, Diogo e Silveira resolvemos fazer uma trip para um lugar, que segundo relatos, seria calor, teria boas ondas e visuais de sonho.
Após algumas pesquisas de valores de passagens aéreas, pousadas, aluguel de carros e outros detalhes, resolvemos virar turistas comuns, pois era muito mais barato, praticamente metade do preço. Compramos um pacote turístico com umas dessas operadoras famosas, incluindo aéreo, translado, pousada com café da manhã, piscina e ar condicionado, super luxo. Algo que em geral, nas surf trips não acontece.
O vôo saía de São Paulo, para ser mais econômicos preferimos fazer de carro os 400 km até lá, economia de mais ou menos uns R$ 300,00 por pessoa, valia a pena atravessar a madrugada na estrada, 6hs de sono e cansaço na BR-116. Chegando em São Paulo, fomos direto ao Aeroporto, tínhamos um tempo de sobra, pois não podíamos correr o risco de atrasos, sendo que éramos integrantes de uma excursão, he he, isso mesmo! Logo, o avião decola e uma sensação de ansiedade misturada com alegria toma conta de todos nós. Será que vai ter onda, será que não vai ter muito vento, será, será...
Pausa em Salvador, um pequeno atraso no vôo, algum tempo aguardando dentro de um ônibus na pista do aeroporto, momento de angústia e de maus cheiros. Enfim, após esse episódio desesperador, seguimos viagem e desembarcamos em Ilhéus, cidade histórica baiana já bem próximo de do nosso destino, Itacaré. Mais uma hora de ônibus e chegamos. Tratados como bons turistas, o transporte nos deixou na porta de uma pousada bem simpática, com piscina e tudo mais, lugar alto astral.
Já era fim de tarde, todos muito cansados, demos um tempo nos quartos e logo saímos para jantar e conhecer a cidade. Dormir cedo e acordar cedo eram os combinados dessa viagem, o dia amanhece cedo e queríamos aproveitar cada minuto de surf.
Nos primeiros raios de sol, todos em pé e fomos direto para o pico mais próximo da pousada, para a primeira queda nas águas baianas. Praia da Tiririca, curta faixa de areia, entre costões de pedras, do outside pode-se visualizar os picos vizinhos, os quais naquelas condições não quebravam de forma ideal. Pegamos 0,5 metro forte, ondas rápidas, consistentes e divertidas, chegamos no pico antes das 6hs da manhã e já havia alguns surfistas na água. O crowd nesse pico é algo impressionante, qualquer que seja a hora ou a condição do mar sempre tem muita gente, justificado pela qualidade e consistência das ondas e pela proximidade com o centrinho da cidade, pico de fácil acesso mesmo à pé. Após nossa queda inaugural tomamos um belo café da manhana (como dizia o dono do estabelecimento, um argentino aposentado). Descansamos um pouco e saímos pela cidade para um reconhecimento da área e para localizar as locadoras de veículos, era imprescindível um carro para explorar os picos da região.
Uma longa procura e várias negociações depois, conseguimos um Uno verde, que chamávamos carinhosamente de Uno Rover, imaginem porque? Começamos então a ficar descolados na cidade, o Silveira já tinha estado ali já fazia alguns anos e serviu como um guia ou quase isso, deu boas dicas e algumas furadas também. Diversão em alto estilo marcou a barca. Havia uma previsão de um swell mais forte para os próximos dias, fomos então verificando quais seriam as praias visitadas e que pudessem oferecer as melhores condições de surf. Partimos em seguida para a primeira mini-expedição, uns 10 km de Uno Rover e uns 40 minutos andando por uma trilha enlameada no meio da Mata Atlântica, visuais paradisíacos. Passamos por um pico chamado havaizinho, mas não era ali o surf, o swell não batia nesse local e a maré seca deixava as pedras amostra, seguimos a trilha e chegamos na Praia da Engenhoca. A praia tem aproximadamente uns 500 mts com dois picos definidos, o direito e o esquerdo, com aquela situação era o pico esquerdo (norte) que quebravam as melhores séries. Rodeada de coqueiros, com um riozinho saindo no canto direito da praia era realmente um visual de sonho, aquecemos e caímos na água, as séries vinham com a média de 0,5 metro, sendo algumas maiores, abriam muito. Fizemos a cabeça até os braços não agüentarem mais. Banho de rio e coco verde para refrescar,iniciamos a caminhada de volta, a alegria contagiava a todos.
O ritmo de vida da cidade gira em torno do ecoturismo, todos acordam muito cedo para aproveitar ao máximo o dia. Nós fazíamos exatamente o mesmo acordando ao amanhecer e surfando o dia todo, às 20 hs estávamos todos quebrados, mas com o astral mais zen possível, ligados e integrados totalmente com a natureza num estilo de vida baiano. Vida calma, pacata. Os dias seguiram rapidamente, com vários momentos mágicos, lembro-me nitidamente do pôr-do-sol de Itacaré na praia do Pontal, fim de tarde vermelho com a cidadezinha ao fundo, e eu e meus amigos curtindo a praia deserta, quase sem fim.
Outro programa marcante foi a visita à Prainha, saindo da pousada caminha-se por uns quinze minutos por uma estradinha, passando pelas praias do Tiririca e do Rezende, só então entra-se numa exuberante mata-atlântica, andando num ambiente puro e natural, com vários pássaros, um pouco de lama e muita fissura para encontrar uma bela praia recheada com ondas perfeitas. Chegando no pico, água verde, meia dúzia de turistas (estes em geral hospedados em um hotel que fica logo após a linha de coqueiros e restinga) e muitas ondas. As ondas quebravam em média com 1,0 metro, fortes e tubulares, fizemos a cabeça num dia lindo com muito sol. Após algumas horas dentro da água, o esquema é sair e tomar uma água de coco curtindo o visual sentado na sombra dos coqueiros. E assim foi passando o dia. Muito surf, calor e alto astral.
Cada dia, desbravávamos um pico diferente, que era programado conforme os ventos e a direção do swell. Chegou o dia de ir para a Praia de Jeribucaçú, até o nome assusta. Esta é umas das praias mais isoladas do município. O caminho até lá é longo, 15 km do centro da cidade por estrada asfaltada em boas condições, deixa-se o carro em uma fazenda pagando uma taxa não tão simbólica, pranchas em baixo do braço e mochila nas costas e começa a camelada. 50 minutos de estradinha de terra descendo uma grande ladeira, local lindo, depois caminha-se por uns pastos e por fim chega-se na praia. Esta,é um banco de areia fofa com um rio escorrendo lentamente pelo lado direito, do lado esquerdo um grande gramado verde impecável com coqueiros. As ondas quebram dos dois lados, devido ao vento forte do quadrante sul, surfamos boas ondas no cantinho direito protegido do tal vento. Fazia muito calor, a água era quente, e o sol escaldante. Depois de muito surf, hora de relaxar e tirar umas fotos no rio, água cristalina com fundo de areia. Diversão o dia inteiro, hora do regresso e que regresso...Subida, muita subida, todo o morro de novo para então chegar no estacionamento onde estava o Uno Rover. A longboard ganhou alguns quilos, o corpo cansado do surf pedia arrego, mas não tinha outro jeito ao não ser caminhar morro acima para só a noite descansar como um anjo, porque no dia seguinte tinha mais.
No dia seguinte teve mais, mais onda, mais sol, mais surf. Voltamos para Engenhoca o swell era perfeito para o pico. Séries com até 1,5 metros, massas d’água vinham gordas do outside, só os amigos na água, paredes abrindo lembrando muito um pico que aprecio aqui no sul. Muito bom, estava de gala. Foi o melhor surf da trip!
Faltava mais uma praia apenas, e é lá que fomos, Praia de Itacarezinho, o mar baixou significativamente e o vento aumentou a intensidade. Chegamos cedo na praia, praia fechada, mas que pagando uma taxa entra-se com o carro. O estacionamento fica a uns 10 metros da areia, conforto total, estávamos acostumados com um perrengue um pouco maior. Praia longa, deserta, mas não por muito tempo, logo depois que chegamos chegou um ou dois ônibus de excursão, acabando com o sossego daquele lugar. O surf de má qualidade, 0,5 metro mexido com muito vento e sem formação, não animou muito. Demos a queda e logo saímos, curtimos um pouco como bons turistas e retornamos para a cidade.
Nossa viagem estava chegando ao fim, foram 7 dias de muito sol, surf, águas verdes, mata atlântica, amizade, novos horizontes, enfim uma surf trip completa em território nacional. Muitas rizadas, descontração, companheirismo e surf na veia, registraram a trip na mente de cada um dos participantes. Não vejo a hora de voltar, Itacaré é show!!!