
O mar sempre cria um certo fascino nas crianças, comigo não foi diferente. No início, sempre um pouco de medo, um tipo de receio e atração ao mesmo tempo. Quando a criança tem por volta dos 2 ou 3 anos, geralmente os pais levam apenas para se molhar e sentir o prazer de estar envolvido com o meio aquático. Com 4 ou 5 anos a vontade já faz com que a criança não queira sair da água na hora da família ir embora da praia. Quando acontece isso, pronto, a paixão pelo oceano se desenvolveu dentro daquele pequeno ser.
Comigo ocorreram essas fases também, como naturalmente ocorre com todos que estão envolvidos de alguma forma com o oceano. Isto não é uma regra, mas se encaixa em milhares de casos. Com um ano de idade meus pais estavam comprando uma casa em Guaratuba, litoral sul paranaense. E com essa idade comecei todo aquele processo de aproximação com o mar citado acima. Passada esse primeira fase, com aproximadamente 7 anos eu não agüentava mais ficar apenas brincando na areia, embora fosse uma atividade muito divertida, construir buracos profundos e pistas de moto-cross, então resolvi pedir de presente uma prancha de isopor para começar a me aventurar nas ondas.
O local dessas primeiras experiências foi na Praia do Morro do Cristo em Guaratuba-Pr, local esse freqüentado por diversas famílias tendo como características banco de areia reto com ondas fracas, sendo um ótimo lugar para banhistas. A primeira ondinha, foi um marco na minha vida, como era boa aquela sensação, eu não queria mais sair da água. As férias duravam aproximadamente uns 15 ou 20 dias por ano, bastante sol e calor, barriga assada devido ao contato da pele direto com o isopor.
No segundo verão de “surf” ganhei uma prancha um pouco maior, que às amarrei até uma cordinha de varal como se fosse um leash. Essa prancha era bem melhor, deslizava com mais velocidade, entrava melhor nas merrequinhas. Começaram os laços de amizade que o surf proporciona, já éramos um grupo que surfávamos todas as manhãs no mesmo local. Alguns dos “surfistas” da época, Pituxa, Tite, Juninho... e mais alguns que agora não lembro o nome, mas lembro muito bem dos sorrisos após mais uma ondinha até a areia. Diversão, sensação de liberdade, contato íntimo com o meio ambiente. E assim mais uma temporada de verão, o inverno parecia não passar ou passar muito devagar para que chagasse a época tão esperada para que pudesse novamente sentir aquela sensação agradável. E assim se passaram umas duas ou três temporadas de verão.
Em Curitiba, cidade natal infelizmente sem praia, eu tentava ter contato com a cultura surf, mesmo com aproximadamente uns 10 anos de idade, comprava umas revistas de surf, freqüentava uma loja da Hang Loose ( que eu achava um sonho), pedia dicas para um primo que já fazia algumas pequenas surf trips e no colégio já se formava também uma pequena tribo que admirava esportes ligados à natureza, como o surf, e o body board.
Passado o longo inverno, eu amarradão agora com uma prancha Morey Booguie da 775 estava mais fissurado para colocar na água aquela que seria minha companheira por 2 ou 3 verões. Ainda no Morro do Cristo com a mesma turma, entram alguns novos integrantes como o Léo e o Klévis. Todos uns pirralhos unidos apenas com um intuito: se divertir, e muito. 4, às vezes 5 horas seguidas na água. Não queria sair, sempre queira pegar mais uma onda quando meu pai fazia sinal da areia para irmos embora. A leitura agora é a revista da época especial para Bodyboarders, a Fluir Bodyboard. As roupas são 100% surfwear, maior estileira. Começo a entender um pouco mais sobre o esporte, sobre equipamentos e sobre as condições do mar. Não posso dizer que aprendi a surfar e saber sobre o surf sozinho, muitos amigos, através das experiências vividas, foram auxiliando na minha formação. Participaram desse processo, grandes amigos, os quais muitos deles tenho contato até o surf do dia de hoje, pois ainda pegamos ondas juntos como na infância. Alguns destes: Juninho, Tite, Klévis, Léo. Alguns outros grandes amigos também influenciaram, mas não na infância, tiveram influência mais tarde.
No final dos anos 80 não tínhamos as facilidades e tecnologias utilizadas e muito hoje pelos surfistas. Escola de surf, aqui no sul, ninguém sabia o que era. O acesso a equipamento era muito mais restrito, não tendo as grandes variedades e quantidade ofertada pelo mercado atualmente.
Com 13 anos convenci meu pai de me dar uma prancha de surf de fibra. Fui junto com ele na loja Grajagan no Omar Shoppinhg para escolher o modelo que melhor se adequasse para que agora começasse a surfar de verdade,
Enfim chega o verão, praia lotada, ondas pequenas e um sol escaldante. Junto com o Klévis e com o Tite, lá ia eu todos os dias caminhava com a prancha em baixo do braço do morro do cristo até a Praia Central. Uma caminhada de uns 15 minutos, perto. Na central a ondulação entra mais de frente, fazendo com que as ondas sejam mais forte e fechem mais rápido do que aquelas ondinhas que eu estava acostumado. Aos poucos eu ia me ajeitando, meus dois amigos também estavam na fase de aprendizado. Eu ainda tinha um pouco de medo de pegar um mar mais forte. Depois desse verão eu já estava acostumado a surfar na Central e já pensava em ir surfar na Praia Brava, tão falada pelos surfistas da época. Fim de verão tristeza no coração, minha família não costumava ir pra praia no inverno. Nesse ano que passou de tanto perturbar a vida do meu pai, consegui que ele me levasse alguns poucos finais de semana fora da temporada, era diversão garantida, eu não queria volta embora nunca.
Em meados de 92 , 93 eu já estava com mais prática e já ia desbravando as ondas da temida Praia Brava, mais especificamente no pico chamado Paraguaios. As ondas da central não me assustavam mais, e eu queria novas emoções. Foi nessas duas praias que aprendi e fui me aperfeiçoando no surf. O interessante é que mesmo sem falar com os amigos o ano todo, quando chegava o verão, sem combinar, todos apareciam com suas pranchinhas prontos para curtir aqueles momentos de surf e amizade. Dominávamos o crowd que começava a se formar nos Paraguaios, surf de manhã e de tarde todos os dias durante uns 40 dias no alto verão. Nesta mesma época comecei a praticar Mountain Bike também , o que me fez afastar um pouco da fissura do surf. Surfava apenas no verão, sem muito compromisso, os treinos e os interesses era pela bike, o mais novo brinquedo.
Mesmo pedalando bastante, a alma era surf. Queria uma prancha nova, maior, mais estável. Comprei uma Canfield 6’5”, bem mais radical do que primeira. Comprei em loja mesmo, o vendedor ajudou na hora da escolha da prancha ideal. Nessa compra eu já estava com 16 anos, queria começar a surfar no inverno também. Chega de só se divertir no verão, queria surf o ano todo, era uma das melhores coisas da vida, os amigos, o prazer do surf, a liberdade. Comecei a ir todos os finais de semana, de ônibus da linha Lapeana, eu e meu amigo Polaco. Slive O’neill, muito bem escolhido, prancha nova e um monte de viagens e desafios pela frente. Ir sozinho, só com o amigo, sem saber se ia ter onda ou não, comer miojo, caminhar mais de 20 min. até a praia, enfrentar o frio, tudo isso era o início da busca pela onda perfeita. Um surfista autêntico sempre quer mais.
Logo no primeiro inverno, queríamos sair de Guaratuba e começar a surfar em outras praias. Eu já havia surfado uma vez na Brava de Matinhos, mas ainda estava de Body Board. Meus amigos nunca haviam saído de Guará para surfar em outros mares. O primeiro desafio foi ir para Matinhos, depois para outras praias como Praia de Leste, Ipanema, todas no minúsculo litoral do Paraná. Com 17 anos conheci o brother Tiago, ele estava muito a fim de iniciar no surf, então ajudei ele escolher os equipamentos ideais. Começamos a nos jogar para outros picos, com mais qualidade de surf do que as merrecas paranaenses. Floripa foi a primeira grande “descoberta”, simplesmente show, água clara, altos visuais, sereias e boas ondas. Fantástico!!
Assim as viagens começaram a ficar cada vez mais freqüentes, o grupo de amigos maior, as experiências mais interessantes e o número de dias de surf/ano muito mais intenso, eu estava completamente contaminado pelo vírus positivo do surf. Cada viagem uma história, cada onda surfada mais sintonia com o oceano, cada novo amigo novas trocas de experiência. Nunca aprendi os ensinamentos do surf em uma escolinha, fui e sou um auto-didata que busca conhecimento nas mais diversas ondas do planeta. Viva e respire o surf!!

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