domingo, 25 de outubro de 2009

Se divirtam, boa leitura!



SURF TRIP CONGELANTE


Acompanhando as direções e intensidades do swell durante uma fria e sinzenta semana de julho, decidi que valia um trip para o sul. Acionei o Fabrício, que na mesma hora topou. Saímos de Curitiba na madrugada de sexta-feira, debaixo de muita chuva, com os termômetros marcando dois graus. Eu me sentia como um louco, 4 hs da manhã, muito frio, prancha em cima do carro, indo buscar o brother.
Amanhecendo estávamos em Floripa, pegando mais um integrante da barca, o grande amigo Tiago, o qual tinha recentemente se mudado para a Ilha de Santa Catarina. Mais uma hora de estrada chegamos ao pico, chuva fina, um metrão na série e poucos corajosos na água. Decidimos de imediato dar uma caída, fizemos um bom surf, batemos um rango e caímos de bode, à tarde mais um queda com um forte vento sul que deixava o mar repicado.
Á noite o frio trincava, céu limpo, estrelado, e na nossa roda de conversa tínhamos a esperança de que estaria perfeito no dia seguinte. Acordamos cedo, céu azul, gramado branco coberto pelo gelo, fomos dar uma conferida. O vento havia parado, o swell mais de leste, séries com até um metro e meio quebrando vazias e perfeitas. Apesar do sol o frio era intenso, long John, botinhas e luvas para agüentar, fizemos a cabeça!Era lindo, um leve terral penteava as séries geladas que entravam na baía.
No dia seguinte igual ou ainda melhor, apenas o crowd havia aumentado, o frio continuava intenso, juntou-se a nós o René, da revista Maneco, mais um para sair roxo da água. Á tarde o crowd sumiu nos deixando totalmente à vontade, só nós, os quatro amigos. Pegávamos as melhores ondas e surfávamos até o inside, todos se deram muito bem, cabeça feita alma lavada. Eu e o Fabrício retornaríamos à noite para Curitiba, ao anoitecer saímos da água com os pés e mãos dormentes e roxos, banho quente, pé na estrada ao som de um reggae contagiante, sorriso no rosto e a sensação de missão cumprida, e a certeza de que vários outros swells como este estão por vir. René e Tiago pegaram mais um dia, o mar baixou visivelmente e o frio também havia diminuído. A partir
Desta trip, este pico tem para todos nós participantes, um forte significado e uma magia extraordinária!
Aloha!

domingo, 18 de outubro de 2009


COSTA RICA PURA VIDA


Sonho antigo, há muito tempo gostaria de conhecer esse pequeno país da América Central, localizado entre o Panamá e a Nicarágua. Um país pobre, que oferece pouca infra-estrutura para seu povo e para os turistas, porém com muitas riquezas naturais como vulcões, cachoeiras, rios, florestas e é claro muitas ondas de qualidade.
Mesmo com o dólar explodindo, resolvi embarcar com mais dois amigos. É imprescindível alugar um bom veículo 4x4 na chegada ao país, pois as estradas são na maioria sem asfalto armando verdadeiras ciladas com os enormes buracos e atoleiros, uma verdadeira aventura off-road entre uma onda e outra.
A primeira parada foi numa das principais cidades do litoral do Oceano Pacífico, Jacó, essa cidade oferece boas acomodações e refeições se comparado ao resto do país, a onda é uma escolinha, vem do outside com formação gorda abrindo para os dois lados, perfeito para o longboard, porém dificilmente quebra com tamanho.Outra onda que surfamos na região foi a Playa Hermosa, praia extensa como vários picos, areia escura, onda rápida e tubular, muito boa, recebe grandes ondulações por ser praia aberta. Mais ao sul está Bejuco, linda praia com coqueiros em toda a sua extensa orla, areia negra, formando uma bela paisagem tropical, onda forte com pressão, fundo de areia compacta.
De Jacó seguimos para o norte em direção a Mal País, um pequeno vilarejo onde surfamos a Playa da Carmen, nada mais do que 4 pés abrindo tudo, só com os amigos na água, perfeito!Mais alguns quilômetros de buracos e chegamos a Tamarindo, onde estava flat, então fomos para Playa Grande, ondas excelentes com água clara, fundo de areia, logo seguimos para a famosa Playa Negra onde pegamos 3 pés na série com água transparente, surfava vendo o fundo rochoso com a luz de um pôr-do-sol maravilhoso.
Roca Bruja, foi a próxima parada e que dispensa comentários, essa onda fica dentro do Parque Nacional Santa Rosa, em um local de dificílimo acesso por terra. A onda é extraordinária, o visual é fantástico, a praia é deserta, uma combinação que deixa qualquer mortal admirado.Decidimos tocar em direção ao sul, para a famosa esquerda de Pavones, foram 13 horas de viagem, mas que foram inteiramente recompensáveis por um bom swell com uns 4-5 pés sólidos e perfeitos, essa onda tem várias sessões possibilitando muitas manobras, inclusive com uma sessão tubular, o fundo é igual a praia com muitas pedras arredondadas, escutamos relatos de locais dizendo que nos melhores dias as ondas chegam a ter 400 metros de extensão, o que não é difícil de acreditar pois pegamos 200 metros com um swell que não é considerado grande. Ficamos vários dias surfando essa esquerda show, o surf era intenso, o astral muito bom, o crowd era pequeno, e na sua maioria estavam americanos. Quando ficou flat fomos para Dominical, altas ondas, ondas pesadas, com correnteza e muita chuva.
Nossa trip estava chegando ao final, voltamos para Jacó, para se despedir de alguns amigos e seguir para San José para embarcar para o Brasil, onde também temos nossos dias de ondas perfeitas, nossa comida muito saborosa, nossos amigos e nossa família.Mas fica a certeza de que voltarei para a Costa Rica!!!
PURA VIDA!!!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Mais um texto das antigas...


Surfissura


Swell de leste previsto para o litoral da PR, pouco vento e sol, condições perfeitas para um final de semana de sossego na praia que comecei a me envolver com o surf: Guaratuba.
Saída na sexta-feira à tarde, pra dar tempo de surfar antes do anoitecer. Eu, Jonas, Simoninha e Bete. Tarde de sol, temperatura agradável, ansiedade a mil por hora pra chegar e ir direto fazer um surf. Prancha nova, 9’1, vermelha e branca, super radical, uma promessa de ser uma boa prancha.
Enfim chegamos, eram umas 17hs, deu tempo de dar uma queda na Praia Central com uma mar de 0,5 metro nas séries, estava pequeno porém com boa pressão. O dia seguinte prometia ser um bom dia de surf. Dormimos cedo, descanso merecido de uma semana com bastante trabalho. No sábado acordamos cedo, e mais ou menos às 8hs já estávamos nos Paraguaios, pico que tenho muito carinho e que aprendi muitas coisas relacionadas ao surf. 0,5 metro bom, nada de mais, logo começa a ventar do quadrante nordeste, o mar fica um pouco crespo, mas não chega a atrapalhar a formação das ondas.Fizemos a cabeça junto com muitos amigos na água.
No mesmo dia, no período da tarde, mais surf, com o mar um pouco mexido, 0,5 metro rolando constante, eu e o Jonas, ambos com longs, dominamos o pico (Paraguaios). Na areia a gatinha lia um livro com toda a tranqüilidade do mundo, mais ao lado o Clévis, um amigo antigo, do tempo do surf no Morro do Cristo, mais ou menos em 1990, fotografava o surf da galera. Num determinado momento, pedi ao Jonas a long 9’0 emprestada por uma onda. Trocamos de tábuas, logo peguei uma esquerda boa, já estava com saudades daquela pranchinha, na seqüência já emendei uma direita, dei uma batida na junção, desequilibrei e levei uma pancada com a borda logo atrás da orelha, fez um pequeno corte e ficou inchado o local. Dor suportável, continuei o surf, peguei ainda várias ondas, as quais foram devidamente registradas pelo brother na areia. Várias fotos de qualidade.
Dia seguinte, domingão, mesmo ritual, acordar cedo, tomar o café da manhã, chegada nos Paraguaios,” opa, não está muito de bom.” Fomos procurar outro pico, Café Curaçao foi o local escolhido, as ondas estavam um pouco maiores, mar liso, sol e as séries entravam constantes, com boa formação e boa pressão. Entramos na água, primeira onda uma esquerda lisinha, peguei ela lá trás, arrancando urros do pequeno crowd ali localizado, alguns conhecidos outro nem tanto. A esquerda estava muito boa. Depois dessa, voltei remando em direção ao outside sorrindo, estava com tudo pra ser um excelente dia de surf. Remei forte, dropei a segunda, uma direita, um pouco menor que a primeira, mas muito bem formada, a parede foi abrindo, abrindo... fiz a onda toda e me joguei na água. No momento em que eu tirava a cabeça da água, já bem próximo da areia, minha prancha nova vem de cima com tudo e acerta com a quilha do meio bem o meio da minha cabeça. No momento levo minha mão na área lesada, e o esperado: sangue.
Saio da água rapidamente, muito enfurecido, a Simone e a Bete, vêm em minha direção, passo reto, jogo minha prancha na areia. No meu corpo inteiro, muito sangue, meu olho esquerdo não via mais nada, devido a quantidade excessiva do tal líquido vermelho. Bermuda, prancha, peito, costas, areia, tudo vermelho! A Simone me traz uma bandagem para estancar a hemorragia, sento, me acalmo, a Bete joga água em cima do ferimento, um corto-contuso com aproximadamente 6 cm de comprimento. Em seguida, consigo estancar todo o sangue, prefiri não fazer sutura, as meninas me auxiliaram com um curativo, peguei um boné de surf e aproximadamente uns 40 min. depois, voltei pra água. A fissura era maior que o corte!
Surfei muitas ondas ainda naquela manhã de sol, com um pouco de dor. Presentes na água também o Daniel e o Rob. Apesar do acidente, eu voltei ao meu estado de felicidade e tranqüilidade num ambiente muito especial que é o oceano. No período da tarde, curativo renovado, outra session, dessa vez um pouco mais devagar, pois sentia uma certa dor de cabeça e no local do ferimento.
Foi um final de semana intenso, com vários acontecimentos, muitas histórias pra contar, um grande aprendizado, muito surf e além da cabeça feita, a cabeça aberta. Surfissura, fissura na cabeça! Compreenda, no qual sentido quiser!!



segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Dando continuidade aos textos antigos...



Local Inóspito

Todos nós surfistas procuramos lugares com ondas perfeitas, lugares que ainda não foram surfados. Esses lugares exercem sobre nós uma magia, um facínio, instiga a vontade de sempre querer mais. As ondas perfeitas em lugares paradisíacos, muitas vezes não estão na polinésia, no oceano índico, ou perdidas em qualquer lugar longe ao alcance da maioria de nós. Podem estar bem mais perto do que pensamos, basta desbravarmos, sair da mesmice, deixar a comodidade de lado. E isso é para poucos.
Fui convidado por três amigos surfistas aventureiros a fazer parte de uma expedição para um desses locais, os famosos secret spots. Não seria a primeira vez em que eles iriam visitar aquele local, mas sim rever as belezas naturais, surfar as belas ondas e trocar muitas idéias com os moradores locais. Para poder fazer a barca, prometi aos participantes não liberar informações, nem fotos. Guardar tudo dentro de si mesmo, como um grande segredo, na verdade como um grande presente. Visitar um local desses é presente que só Deus e seus amigos podem lhe dar.
O local fica isolado, pode estar nas regiões sul ou sudeste do país. Saímos muito cedo da cidade em direção ao norte ou ao sul. Várias horas de carro, algum tempo de barco e pronto, chegamos na metade do caminho. Muitas horas à pé, caminhando pela Mata Atlântica, por longas praias, por costões, passando por cachoeiras, pontos históricos, passando, passando, hermitões, índios, locais que parecem o Brasil à 500 anos atrás, intocado. Não existe mundo globalizado, internet, telefone, ou qualquer outra coisa que não seja, areia, mata, pedras e poucas pessoas as quais são puras de coração e de alma.
Durante a caminhada, nós quatro refletimos muito sobre a vida, sobre o surf, sobre o modo de vida surf. Uma expedição dessas não é para amadores, o cansaço é algo muito evidente, totalmente compensado pelo astral, pela natureza que impressiona a cada passo percorrido. Mochilas carregadas, pranchas, alimentos e barracas, um duro sacrifício simplesmente com o propósito de surfar ondas praticamente virgens, conversar com pessoas especiais e muitas vezes ingênuas. Tudo tem seu preço, nesse caso, considero ainda barato.
Chegando no local, saindo de um mangue seco, somos recepcionados por crianças locais, muito prestativas e bem humoradas. A emoção de chegar num local como esses não tem como explicar, cada companheiro agiu de sua forma. Aflorando seus mais puros sentimentos, é a volta as origens. Para mim um lugar novo, adrenalina misturada com sensação de novidade, de descoberta. Para os veterenos, o prazer de estar ali novamente, rever pessoas. Ficamos todos extasiados.
Fomos diretamente até a casa de uma senhora, amiga de longa data dos meus amigos. Esta senhora, ficou muito emocionada de rever seus filhos aventureiros. Tratamento vip, logo já estávamos na humilde e singela casa, roendo uns biscoitos e tomando um café preto. Me senti realmente em casa. Fiquei impressionado com a vida que aquelas pessoas levam, vivem da pesca, sem a mínima noção do que é esse nosso mundo atual. A vida natural, sem stress, transito, carros, prédios, correria, emprego. Simplesmente vivem, profundos conhecedores da mata, do mar, tem intimidade com essas divindades. O que falar de uma pessoa sem maldades, pura, sincera, simples, hospitaleira, não tenho palavras para designar o que são e o que representam pra mim esses novos amigos, com quem não posso me comunicar pelo msn, nem por e-mail, mas sim por uma longa caminhada no meio da mata. Aprendi muitas coisas naqueles poucos dias envolvido naquele mundo puro. Diferentes valores, uma diferente forma de vida, um povo que vive pra natureza.
As condições de surf não estavam das mais favoráveis, mais o que isso importava naquele contexto? No corpo, um cansaço profundo, na mente uma paz que nunca tinha sentido em nenhum outro lugar, no coração uma felicidade muito grande, uma satisfação pessoal por estar ali. Local perfeito! Ventava muito, um vento maral, deixando o mar todo repicado com fortes correntezas, esse mesmo vento que estragava o mar trazia consigo um ar acolhedor, um ar de boas vindas.
No período da noite, todos nós nos recolhemos muito cedo, pois o dia seguinte era o foco principal. Um amanhecer de chorar, visual lindo com um presente divino, o vento havia diminuído, mas ainda era maral. Decidimos fazer uma breve caminhada e surfar em outra praia próxima. Esquerdas muito boas abriam até o inside, a correnteza fazíamos remar sem parar, mas todos pegaram altas ondas. Éramos as únicas pessoas naquela imensa praia sendo agraciadas por um belo sol e ondas vazias. A rotina do local não era outra senão a de acordar com o nascer do sol, olhar o mar enfrente a pobre casa, surfar até cansar, brincar com as crianças, comer um peixe pescado na hora e surfar de novo. No fim de tarde um arco-íris lindo pra completar a trip, enquanto surfávamos os nativos olhavam atentamente a ação daquelas pranchas “valentes”. Cai a noite e um mar de estrelas está acima das nossas cabeças naquela escuridão intensa.
Chegou o dia de partir, hora triste para os nativos que mais se apegaram com a gente. Hora triste pra nós que num passe de mágica sairíamos de um lugar esquecido no tempo para voltar a nossa rotina na cidade grande. Altas ondas fechavam o outside, mesmo assim saímos do local via mar. O tão grandioso mar que muitas vezes nos dá momentos de felicidade também deixa-nos com sentimentos como o medo, o respeito, a ansiedade.
Nunca irei esquecer dessa oportunidade que me foi dada, agradeço aos amigos que me levaram, agradeço as pessoas pelo tratamento familiar e humilde, agradeço ao mar por proporcionar momentos de grande felicidade e prazer, agradeço a mão natureza pelas belezas e lições ensinadas de forma vivencial. Agradeço a Deus por ter me dado o dom do Surf que me fez ir buscar um lugar como esse!!
Tenho a certeza de um breve retorno...