
Local Inóspito
Todos nós surfistas procuramos lugares com ondas perfeitas, lugares que ainda não foram surfados. Esses lugares exercem sobre nós uma magia, um facínio, instiga a vontade de sempre querer mais. As ondas perfeitas em lugares paradisíacos, muitas vezes não estão na polinésia, no oceano índico, ou perdidas em qualquer lugar longe ao alcance da maioria de nós. Podem estar bem mais perto do que pensamos, basta desbravarmos, sair da mesmice, deixar a comodidade de lado. E isso é para poucos.
Fui convidado por três amigos surfistas aventureiros a fazer parte de uma expedição para um desses locais, os famosos secret spots. Não seria a primeira vez em que eles iriam visitar aquele local, mas sim rever as belezas naturais, surfar as belas ondas e trocar muitas idéias com os moradores locais. Para poder fazer a barca, prometi aos participantes não liberar informações, nem fotos. Guardar tudo dentro de si mesmo, como um grande segredo, na verdade como um grande presente. Visitar um local desses é presente que só Deus e seus amigos podem lhe dar.
O local fica isolado, pode estar nas regiões sul ou sudeste do país. Saímos muito cedo da cidade em direção ao norte ou ao sul. Várias horas de carro, algum tempo de barco e pronto, chegamos na metade do caminho. Muitas horas à pé, caminhando pela Mata Atlântica, por longas praias, por costões, passando por cachoeiras, pontos históricos, passando, passando, hermitões, índios, locais que parecem o Brasil à 500 anos atrás, intocado. Não existe mundo globalizado, internet, telefone, ou qualquer outra coisa que não seja, areia, mata, pedras e poucas pessoas as quais são puras de coração e de alma.
Durante a caminhada, nós quatro refletimos muito sobre a vida, sobre o surf, sobre o modo de vida surf. Uma expedição dessas não é para amadores, o cansaço é algo muito evidente, totalmente compensado pelo astral, pela natureza que impressiona a cada passo percorrido. Mochilas carregadas, pranchas, alimentos e barracas, um duro sacrifício simplesmente com o propósito de surfar ondas praticamente virgens, conversar com pessoas especiais e muitas vezes ingênuas. Tudo tem seu preço, nesse caso, considero ainda barato.
Chegando no local, saindo de um mangue seco, somos recepcionados por crianças locais, muito prestativas e bem humoradas. A emoção de chegar num local como esses não tem como explicar, cada companheiro agiu de sua forma. Aflorando seus mais puros sentimentos, é a volta as origens. Para mim um lugar novo, adrenalina misturada com sensação de novidade, de descoberta. Para os veterenos, o prazer de estar ali novamente, rever pessoas. Ficamos todos extasiados.
Fomos diretamente até a casa de uma senhora, amiga de longa data dos meus amigos. Esta senhora, ficou muito emocionada de rever seus filhos aventureiros. Tratamento vip, logo já estávamos na humilde e singela casa, roendo uns biscoitos e tomando um café preto. Me senti realmente em casa. Fiquei impressionado com a vida que aquelas pessoas levam, vivem da pesca, sem a mínima noção do que é esse nosso mundo atual. A vida natural, sem stress, transito, carros, prédios, correria, emprego. Simplesmente vivem, profundos conhecedores da mata, do mar, tem intimidade com essas divindades. O que falar de uma pessoa sem maldades, pura, sincera, simples, hospitaleira, não tenho palavras para designar o que são e o que representam pra mim esses novos amigos, com quem não posso me comunicar pelo msn, nem por e-mail, mas sim por uma longa caminhada no meio da mata. Aprendi muitas coisas naqueles poucos dias envolvido naquele mundo puro. Diferentes valores, uma diferente forma de vida, um povo que vive pra natureza.
As condições de surf não estavam das mais favoráveis, mais o que isso importava naquele contexto? No corpo, um cansaço profundo, na mente uma paz que nunca tinha sentido em nenhum outro lugar, no coração uma felicidade muito grande, uma satisfação pessoal por estar ali. Local perfeito! Ventava muito, um vento maral, deixando o mar todo repicado com fortes correntezas, esse mesmo vento que estragava o mar trazia consigo um ar acolhedor, um ar de boas vindas.
No período da noite, todos nós nos recolhemos muito cedo, pois o dia seguinte era o foco principal. Um amanhecer de chorar, visual lindo com um presente divino, o vento havia diminuído, mas ainda era maral. Decidimos fazer uma breve caminhada e surfar em outra praia próxima. Esquerdas muito boas abriam até o inside, a correnteza fazíamos remar sem parar, mas todos pegaram altas ondas. Éramos as únicas pessoas naquela imensa praia sendo agraciadas por um belo sol e ondas vazias. A rotina do local não era outra senão a de acordar com o nascer do sol, olhar o mar enfrente a pobre casa, surfar até cansar, brincar com as crianças, comer um peixe pescado na hora e surfar de novo. No fim de tarde um arco-íris lindo pra completar a trip, enquanto surfávamos os nativos olhavam atentamente a ação daquelas pranchas “valentes”. Cai a noite e um mar de estrelas está acima das nossas cabeças naquela escuridão intensa.
Chegou o dia de partir, hora triste para os nativos que mais se apegaram com a gente. Hora triste pra nós que num passe de mágica sairíamos de um lugar esquecido no tempo para voltar a nossa rotina na cidade grande. Altas ondas fechavam o outside, mesmo assim saímos do local via mar. O tão grandioso mar que muitas vezes nos dá momentos de felicidade também deixa-nos com sentimentos como o medo, o respeito, a ansiedade.
Nunca irei esquecer dessa oportunidade que me foi dada, agradeço aos amigos que me levaram, agradeço as pessoas pelo tratamento familiar e humilde, agradeço ao mar por proporcionar momentos de grande felicidade e prazer, agradeço a mão natureza pelas belezas e lições ensinadas de forma vivencial. Agradeço a Deus por ter me dado o dom do Surf que me fez ir buscar um lugar como esse!!
Tenho a certeza de um breve retorno...
Todos nós surfistas procuramos lugares com ondas perfeitas, lugares que ainda não foram surfados. Esses lugares exercem sobre nós uma magia, um facínio, instiga a vontade de sempre querer mais. As ondas perfeitas em lugares paradisíacos, muitas vezes não estão na polinésia, no oceano índico, ou perdidas em qualquer lugar longe ao alcance da maioria de nós. Podem estar bem mais perto do que pensamos, basta desbravarmos, sair da mesmice, deixar a comodidade de lado. E isso é para poucos.
Fui convidado por três amigos surfistas aventureiros a fazer parte de uma expedição para um desses locais, os famosos secret spots. Não seria a primeira vez em que eles iriam visitar aquele local, mas sim rever as belezas naturais, surfar as belas ondas e trocar muitas idéias com os moradores locais. Para poder fazer a barca, prometi aos participantes não liberar informações, nem fotos. Guardar tudo dentro de si mesmo, como um grande segredo, na verdade como um grande presente. Visitar um local desses é presente que só Deus e seus amigos podem lhe dar.
O local fica isolado, pode estar nas regiões sul ou sudeste do país. Saímos muito cedo da cidade em direção ao norte ou ao sul. Várias horas de carro, algum tempo de barco e pronto, chegamos na metade do caminho. Muitas horas à pé, caminhando pela Mata Atlântica, por longas praias, por costões, passando por cachoeiras, pontos históricos, passando, passando, hermitões, índios, locais que parecem o Brasil à 500 anos atrás, intocado. Não existe mundo globalizado, internet, telefone, ou qualquer outra coisa que não seja, areia, mata, pedras e poucas pessoas as quais são puras de coração e de alma.
Durante a caminhada, nós quatro refletimos muito sobre a vida, sobre o surf, sobre o modo de vida surf. Uma expedição dessas não é para amadores, o cansaço é algo muito evidente, totalmente compensado pelo astral, pela natureza que impressiona a cada passo percorrido. Mochilas carregadas, pranchas, alimentos e barracas, um duro sacrifício simplesmente com o propósito de surfar ondas praticamente virgens, conversar com pessoas especiais e muitas vezes ingênuas. Tudo tem seu preço, nesse caso, considero ainda barato.
Chegando no local, saindo de um mangue seco, somos recepcionados por crianças locais, muito prestativas e bem humoradas. A emoção de chegar num local como esses não tem como explicar, cada companheiro agiu de sua forma. Aflorando seus mais puros sentimentos, é a volta as origens. Para mim um lugar novo, adrenalina misturada com sensação de novidade, de descoberta. Para os veterenos, o prazer de estar ali novamente, rever pessoas. Ficamos todos extasiados.
Fomos diretamente até a casa de uma senhora, amiga de longa data dos meus amigos. Esta senhora, ficou muito emocionada de rever seus filhos aventureiros. Tratamento vip, logo já estávamos na humilde e singela casa, roendo uns biscoitos e tomando um café preto. Me senti realmente em casa. Fiquei impressionado com a vida que aquelas pessoas levam, vivem da pesca, sem a mínima noção do que é esse nosso mundo atual. A vida natural, sem stress, transito, carros, prédios, correria, emprego. Simplesmente vivem, profundos conhecedores da mata, do mar, tem intimidade com essas divindades. O que falar de uma pessoa sem maldades, pura, sincera, simples, hospitaleira, não tenho palavras para designar o que são e o que representam pra mim esses novos amigos, com quem não posso me comunicar pelo msn, nem por e-mail, mas sim por uma longa caminhada no meio da mata. Aprendi muitas coisas naqueles poucos dias envolvido naquele mundo puro. Diferentes valores, uma diferente forma de vida, um povo que vive pra natureza.
As condições de surf não estavam das mais favoráveis, mais o que isso importava naquele contexto? No corpo, um cansaço profundo, na mente uma paz que nunca tinha sentido em nenhum outro lugar, no coração uma felicidade muito grande, uma satisfação pessoal por estar ali. Local perfeito! Ventava muito, um vento maral, deixando o mar todo repicado com fortes correntezas, esse mesmo vento que estragava o mar trazia consigo um ar acolhedor, um ar de boas vindas.
No período da noite, todos nós nos recolhemos muito cedo, pois o dia seguinte era o foco principal. Um amanhecer de chorar, visual lindo com um presente divino, o vento havia diminuído, mas ainda era maral. Decidimos fazer uma breve caminhada e surfar em outra praia próxima. Esquerdas muito boas abriam até o inside, a correnteza fazíamos remar sem parar, mas todos pegaram altas ondas. Éramos as únicas pessoas naquela imensa praia sendo agraciadas por um belo sol e ondas vazias. A rotina do local não era outra senão a de acordar com o nascer do sol, olhar o mar enfrente a pobre casa, surfar até cansar, brincar com as crianças, comer um peixe pescado na hora e surfar de novo. No fim de tarde um arco-íris lindo pra completar a trip, enquanto surfávamos os nativos olhavam atentamente a ação daquelas pranchas “valentes”. Cai a noite e um mar de estrelas está acima das nossas cabeças naquela escuridão intensa.
Chegou o dia de partir, hora triste para os nativos que mais se apegaram com a gente. Hora triste pra nós que num passe de mágica sairíamos de um lugar esquecido no tempo para voltar a nossa rotina na cidade grande. Altas ondas fechavam o outside, mesmo assim saímos do local via mar. O tão grandioso mar que muitas vezes nos dá momentos de felicidade também deixa-nos com sentimentos como o medo, o respeito, a ansiedade.
Nunca irei esquecer dessa oportunidade que me foi dada, agradeço aos amigos que me levaram, agradeço as pessoas pelo tratamento familiar e humilde, agradeço ao mar por proporcionar momentos de grande felicidade e prazer, agradeço a mão natureza pelas belezas e lições ensinadas de forma vivencial. Agradeço a Deus por ter me dado o dom do Surf que me fez ir buscar um lugar como esse!!
Tenho a certeza de um breve retorno...

Nenhum comentário:
Postar um comentário